GRANDES MESTRES DA CAPOEIRA ANGOLA

MESTRE PASTINHA
“Mestre e guardião da capoeira angola”

Sua história

Nascido em 5 de abril de 1889, na cidade de Salvador, Bahia. Filho de José Señor Pastinha, espanhol, e Raimunda dos Santos nascida em Santo Amaro da Purificação.

Pastinha descreve seu ingresso na capoeira:

“Quando eu tinha dez anos de idade, eu era franzininho. Um outro menino, mais taludo que eu, tornou-se meu rival. Era só eu sair pra rua, fazer compras, por exemplo, e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando sempre.

Contava ainda o tal menino com o apoio de sua mãe, que o incentivava a bater mais. Ao voltar para casa, eu ainda apanhava pela segunda vez, de minha madrinha, por causa da demora em trazer as compras ou por estar com a roupa rasgada. Então, eu ia chorar de vergonha e tristeza. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu à briga da gente. ‘Vem cá meu filho’, ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. ‘Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando arraia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muito valia’. Foi isso que o velho me disse e eu fui. Ele arrastava os móveis da sala e deixava um espaço livre onde me ensinava a jogar capoeira, todo dia um pouco e aprendi tudo. Ele costumava dizer: ’não provoque, menino. Vai botando devagarzinho ele sabedor do que você sabe’. Um ano depois, encontrei o menino na rua. Ele, então me perguntou: ’Estava viajando ou estava se escondendo com medo de mim?’ Eu, então, lhe respondi: ’Estava com medo!’. A mãe do menino já se encontrava na porta, sorrindo, divertida, esperando o inicio do espetáculo, quando seu filho venceria novamente a batalha. Mas, para sua surpresa, aconteceu o contrário. Assim que o menino levantou a mão para desferir a pancada, com um só golpe, mostrei-lhe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival. O menino ficou até meu amigo, de admiração e respeito. O velho africano chamava-se Benedito e quando me ensinou o jogo tinha mais idade do que eu hoje.”
Começou a ensinar capoeira aos 12 anos, na Escola de Aprendiz de Marinheiro, para seus colegas. Depois em 1910, saiu da marinha e foi ensinar capoeira a Raymundo Aberrê, além de trabalhar no Diário da Bahia.

Em 1941, em uma tarde de domingo, seu ex-aluno Aberrê o chamou para uma roda de capoeira no Gingibirra, na Ladeira das Pedras, onde se encontravam os maiores mestres da Bahia. Mestre Pastinha o acompanhou e ficou a vadiar à tarde com os outros mestres. Ao final da tarde, o mestre Amorzinho, que era um dos maiores mestres da Bahia, entregou a capoeira angola ao Mestre Pastinha, para que ele tomasse frente e a colocasse em seu devido lugar. Assim começou o CECA –Centro Esportivo de Capoeira Angola - em 1952, no largo do Pelourinho. O uniforme do CECA era preto e amarelo que eram as cores do time de futebol Ypiranga, que tinham Mestre Pastinha como torcedor fanático.

Ele treinou grandes nomes como: João Grande, João Pequeno, Gildo Alfinete, Albertino da Horta, Natividade, e outros.

Pastinha tinha admiradores ilustres como o escritor Jorge Amado, o pintor Caribe, o filósofo Jean-Paul Sarte e o ator Jean-Paul Belmodo. Jorge Amado escreveu inúmeras vezes sobre seu amigo:

“Mestre Pastinha, mestre da Capoeira Angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda sua picardia, é um dos seus ilustres, um de seus obas, de seus chefes. É o primeiro em sua arte; senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal. Em sua escola, no Pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira, da mais real e da melhor. Toda vez que assisto esse homem de 75 anos jogar Capoeira, dançar samba, exibir sua arte com o ela de um adolescente, sinto toda invencível força do povo da Bahia, sobrevivendo e construindo apesar da penúria infinita, da miséria, do abandono. Em si mesmo o povo encontra forças e produz sua grandeza. Símbolo e face desse povo é Mestre Pastinha”

(desenho feito por Pastinha)

“O Centro Esportivo de Capoeira Angola se encontra sob a competente direção de Vicente Pastinha, de quem todos afirmam ser o melhor e o mais perfeito lutador de Capoeira Angola da Bahia”

Jorge Amado. Bahia de Todos os Santos, 1960.

Com o CECA, fez apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Recife e Curitiba. Mas a mais importante foi em 1966 em Dakar, na África para o I Festival Mundial de Arte Negra, onde recebeu várias homenagens de participantes e promotores do evento. Mestre João Grande, Mestre Gato, Mestre Gildo Alfinete, Mestre Roberto Santanás e Camafeu de Oxossi.

Em 1971, aos 82 anos, cego, mandaram-lhe mudar do Pelourinho dizendo que haveria reformas no conjunto arquitetônico, e que poderia voltar quando tudo terminasse. Perdeu quase todas suas coisas que ficavam na Academia. Passou viver com uma quantia simbólica que pouco lhe sustentava.

Muito doente, mudou-se para um quarto úmido e sem janelas. Quando o dia em que acabara as reformas e ele voltaria a dar aulas na Academia, Pastinha ao descobrir que a prefeitura havia desapropriado o imóvel, doado ao Patrimônio Histórico da Fundação do Pelourinho, que vendeu ao Senac, entrou em profunda depressão.

Em 13 de novembro de 1981, veio a falecer aos 92 anos dos quais 82 dedicados à causa da capoeira. Morreu cego e abandonado, D. Romélia que cuidou dele até sua morte.

A maneira de pensar

Sobre a arte da Capoeira

“O capoeirista deve ter em mente que a capoeira não visa, exclusivamente, preparar o indivíduo para o ataque ou defesa contra uma agressão, mas, desenvolver, ainda, por meio de exercícios físicos e mentais um verdadeiro desportista, um homem que sabe dominar-se antes de dominar o adversário. O capoeirista deve ser calmo, tranqüilo, calculista. Além dos exercícios de ordem física deve exercitar-se mentalmente, imaginando situações críticas as mais diversas, que procurará resolver. Se algum dia se encontrar em tais emergências terá maiores probabilidades de vitória. A Capoeira exige um certo misticismo, lealdade com os companheiros de ‘jogo’ e obediência absoluta às regras que o presidem”

Sobre a sua capoeira

“Pratico a verdadeira Capoeira Angola e aqui os homens aprendem a ser leais e justos. A lei de Angola que herdei de meus avós é a lei da lealdade. A Capoeira Angola, a que aprendi, não deixei mudar aqui na Academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são os meus”

“Mas o que serve para a defesa também serve para o ataque. A capoeira é tão agressiva quanto perigosa. Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a Polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar, eu lembrava do Mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira e queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo”

“E jogar precisa ser jogado sem sujar a roupa, sem tocar o corpo no chão. Quando eu jogo, até pensam que o velho está bêbado, porque fico todo mole e desengonçado, parecendo que vou cair. Mas ninguém ainda me botou no chão, nem vai botar”

Sobre o capoeirista

“Saem daqui da Academia sabendo tudo. Sabendo que a luta é muito maliciosa e cheia de manhas, que a gente tem de ter calma. Que não é uma luta atacante, ela espera. Capoeirista nunca dizia a ninguém que lutava. Era homem astuto e ardiloso, como a própria luta, que se disfarçou com a dança para sobreviver depois que chegou de Angola. Capoeirista é mesmo muito disfarçado. Contra a força só isso mesmo. Está certo”

“O capoeirista é um curioso, tem mentalidade para muita coisa, sabendo aproveitar de tudo que o ambiente lhe pode proporcionar. E a Capoeira Angola só pode ser ensinada sem forçar a naturalidade da pessoa. O negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada um. Ninguém luta do meu jeito, mas no deles há toda a sabedoria que aprendi. Cada um é cada um”

Sobre a marginalização da capoeira

“Os negros usavam capoeira para defender sua liberdade. No entanto, malandros e gente infeliz descobriram nesses golpes um jeito de assaltar os outros, vingar-se de inimigos e enfrentar a polícia. Foi um tempo triste da capoeira. Eu conheci, eu vi. Nas bandas das docas... Luta violenta, ninguém a pôde conter. Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da capoeira, mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica? E a faca? E os canhões? E as bombas? A Capoeira Angola parece uma dança, mas não é não. Pode matar, já matou. Bonita! Na beleza está contida sua violência”

Sobre as regras

“A capoeira exige um certo misticismo, lealdade com os companheiros de jogo e obediência absoluta às regras que o presidem.

Acreditamos que estas recomendações sintetizam os fundamentos da Capoeira Angola.

Infelizmente grande parte dos nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não descambe no excesso do vale tudo, note bem, estou falando em sentido de demonstração, e não de desafio, que sempre traz conseqüências às vezes desastrosas; tira toda a beleza e o brilho da capoeira, e o capoeirista perde sua capacidade por falta de explicação. Meus caros amigos, não podia deixar de dizer a verdade, entre estas linhas, é minha dá de ofício, capoeirista sou.

Note bem, destruir? É um covarde, é mostrar sua fraqueza. Se fugir é ser fujão do que é seu. Os mestres não podem ensinar com descortesia nem de modo agressivo, não. O bom capoeirista nunca se exalta, procura sempre estar calmo para poder refletir com precisão de acerto; não discute com seus camaradas ou alunos, não toma jogo sem ser sua vez para não aborrecer os companheiros, e daí surgir uma rixa; ensinar aos seus alunos sem procurar exibição de modo agressivo, e nem apresentar-se de modo descortês, sem amor à nossa causa que é causa da moralização e aperfeiçoamento dessa luta tão bela quanto útil à nossa educação física...”

“Não se pode esquecer do berimbau. Berimbau é o primitivo mestre. Ensina pelo som. Dá vibração e ginga no corpo da gente. O conjunto de percussão com o berimbau não é arranjo moderno, não, é coisa dos princípios. Bom capoeirista, além de jogar, deve saber tocar berimbau e cantar”
“Segundo ele, os admiradores deveriam integrar o universo da capoeira como parcela indispensável para o reconhecimento do valor de um capoeirista, afinal a roda não é só composta pelos que jogam, contribuindo para a ampliação do mundo da capoeira”

Frederico José de Abreu

“Vejamos meus amigos; o brilho de um capoeirista é só quando se bate em igualdade de condições, e o público ovaciona a altura, reconhecendo seu valor”

Seus discípulos Mestres
João Pequeno e João Grande

Em 1970, Mestre Pastinha assim se manifestou:

"Eles serão os grandes capoeiras do futuro e para isso trabalhei e lutei com eles e por eles. Serão mestres mesmo, não professores de improviso, como existem por aí e que só servem para destruir nossa tradição que é tão bela. A esses rapazes ensinei tudo o que sei, até mesmo o pulo do gato".

 

Roda no cais
jogando João Grande e João Pequeno

João Pereira dos Santos, aluno do Mestre Pastinha e um dos mais velhos e importantes mestres da Capoeira Angola em atividade. Pela academia do Mestre João Pequeno, no Centro Histórico de Salvador, passaram alguns dos principais mestres da nova geração angoleira. É possível vê-lo quase todas as noites jogando e ensinando a tradicional arte da Capoeira.
Mestre João Pequeno
Mestre João Grande

Mesmo sem falar inglês, um dos maiores mestres de Capoeira Angola do Brasil, Mestre João Grande, vive em Nova York há nove anos, ensinando sua arte em um dos bairros próximo ao badalado Village. Pela sabedoria e riqueza do seu trabalho, os norte americanos já concederam ao Mestre brasileiro o título de Doutor Honoris Causa. Sua trajetória pelos ares nova iorquinos começou em 1990. Sem escolaridade e sem dinheiro, chegou aos EUA como convidado para participar do Festival de Cultura Negra de Atlanta.

Mas um outro convite do colega baiano, o Negro Gato, para realizar workshops no Harlem, forçou João Grande a estender um pouco mais a sua permanência em Nova York. "Entretanto, resolvi prolongar mais alguns dias e acabei ficando de vez. Em três anos consegui o green card, e criei raízes. Acho que foi Deus quem mandou que viesse para Nova York. E daqui não pretendo sair mais", garante.

João Grande afirma que sente saudades da Bahia, que é uma terra abençoada. Mas segundo ele, lá a capoeira não tem valor. Nos EUA, está sendo reconhecido pelo seu trabalho, onde utiliza de toda a antigüidade da Angola apresentada por Pastinha e demais mestres.
Na academia onde ensino, somos uma família, pois um ajuda o outro", lembra. João cultiva experiências anteriores, adquiridas em viagens pela África e Europa, fazendo shows que representavam a Bahia, como: capoeira, candomblé, samba e Maculelê.

"Pelo mundo nós apresentávamos tipos de capoeira como o Exú, Capoeira de Candini e Capoeira de Rua (jogo fechado). O que faço nos shows, não faço nas ruas ou nas academias. O angoleiro é malicioso e possui um lado positivo e um lado negativo, conforme o adversário". Explica o Mestre. A Capoeira Angola é uma dança africana, a "dança da zebra", trazida pelos escravos que ficavam escondidos em suas senzalas, exercitando. Quando seus chefes chegavam, eles praticavam a dança. Faziam isto para serem libertados. Então a capoeira passou a ser uma arte, uma dança, cultura e profissão. Angola é a mãe de todas as Danças e lutas. Os africanos possuem muita cultura e raiz para oferecer.

O Mestre João Grande conta que muitos capoeiras já não jogam mais por amor. Alguns dão aulas sem pensar em capoeira. "O meu gênero era dança e folclore, até o dia em que o Pastinha me deu o titulo de mestre", lembra. Depois que se aposentou passou a dar aulas na Bahia, inclusive para os meninos de rua. Costumava dizer que começou a jogar capoeira por ordem de Deus e seus orixás. "Quando eu tinha 10 anos, passaram dois meninos por mim e fizeram o corta-capim. Prestei atenção, só de longe. Depois meu bisavô me explicou que era uma dança nagô, que veio da África", acrescenta. João Grande recorda que percorreu, por muito tempo, algumas regiões, perguntando sobre o corta-capim, mas ninguém soube lhe explicar em detalhes. Até que por fim, ele encontrou o Mestre João Pequeno, que lhe mostrou o golpe e respondeu que aquilo era capoeira.

O aprendizado da arte aconteceu com o Mestre Pastinha. "Ele era calmo e não gostava de violência. O Pastinha foi meu mestre, avô e pai de capoeira", garante João Grande. A vontade de voltar para a Bahia é imensa. O mestre lamenta que a capoeira esteja ameaçada por falta de apoio à cultura brasileira. "Enquanto isso, vou ficando por aqui, mesmo curtindo a saudade da Bahia. Deus me dá força! Por isso, acredito que posso dar continuidade ao meu trabalho, divulgando cada vez mais nossa cultura nos Estados Unidos", finaliza.

Meste Waldemar

Um capoeirista de grande destaque entre os que defendiam a escola tradicional foi Mestre Waldemar da Liberdade, nascido em 1916 e falecido em 1990.
Waldemar Rodrigues da Paixão, cantador absoluto, Capoeira desde rapaz. Teve como seus Mestres, nada menos do que Siri de Mangue, Tanabí e Canário Pardo. Freqüentador assíduo das Festas de Largo, tinha o seu barracão, na Liberdade, onde ensinava e promovia as suas Rodas, muito conhecidas e apreciadas por todos e freqüentadas por capoeiras e artistas como o notável Carybé. Ficou conhecido também pela qualidade e beleza dos berimbaus que fabricava. Temido e respeitado, por todos com quem jogava, teve vários admiradores e alunos, dentre eles Zacarias. Muitos e muitos capoeiristas e estudiosos, várias vezes recorrem ao Mestre que sempre atendeu a todos com a simpatia e cortesia de um Capoeira genuíno. Hoje Mestre Waldemar anda por outras Rodas, porém aqueles que passam pela Avenida Peixe, na Liberdade, ainda podem sentir a sua presença e ouvir o seu inconfundível canto, acompanhado com seu "berimbau voizero".
“Essa pintura de berimbau quem inventou fui eu. (...)


Os capoeiristas daqui, os mestres, faziam berimbau com casca. O arame era arame de cerca, não era arame de aço. Depois eles queimavam o pneu e tiravam aquele arame enferrujado, quebrava. Eu inventei abrir na raça pra sair cru. Cheguei a fazer berimbau envernizado. Cheguei a fazer berimbau em branco (...) Depois eu inventei pintar e passei a fazer berimbau pintado. Sou conhecido nisso.”

Infelizmente, na sua velhice Mestre Waldemar não teve o reconhecimento que merecia, e não foram muitos os capoeiristas mais jovens que tiveram a honra de conhecê-lo e ouvi-lo contar suas histórias. Morreu na pobreza, como outros capoeiristas célebres, como Mestre Pastinha.
Mestre Noronha
Daniel Coutinho nasceu em Salvador (BA), na Baixa dos Sapateiros e iniciou seu aprendizado na Capoeira com Cândido da Costa (Cândido Pequeno) aos 8 anos de idade. Foi engraxate, estivador, doqueiro, trapicheiro e ajudante de caminhão. Junto com Livino, Maré, Amorzinho, Aberrê, Percílio, Geraldo Chapeleiro, Juvenal Engraxate, Geraldo Pé de Abelha, Zehí, Feliciano Bigode de Seda, Bom Nome, Henrique Cara Queimada, Onça Preta, Cimento, Argemiro Grande, Argemiro Olho de Pombo, Antônio Galindeu, Antônio Boca de Porco, Cândido Pequeno (Argolinha de ouro), Lúcio Pequeno e Paquete do Cabula fundou o "Primeiro Centro de Capoeira Angola do Estado da Bahia", em Ladeira da Pedra, Gengibirra, na Liberdade. Com Livino fundou, também o "Centro de Capoeira Angola da Conceição da Praia". Deixou seus manuscritos organizados por Fred Abreu e publicados pelo Programa Nacional de Capoeira, intitulado "ABC da Capoeira Angola".

..."PORQUER E NOSSO PREVILEGIO. ACAPOEIRA VEIO DA AFRICA TRAZIDA PELLO AFRICANO TODOS NOIS SABEMOS DISCO POREM NÏ ERA EDUCADA QUEM EDUCOR ELLA FAMOS NOIS BAHIANO PARA SUA DEFEISA PESSOAL QUE ESTAR NOIUS MEIOS ÇOCIAL PORQUE É O ESPORTE MAIS ATRAENTE DO MUNDO"...

Apesar da baixa escolaridade, Noronha, era inteligente, observador e arguto, como a maioria dos mestres e capoeiristas de sua época, observando, analisando, deduzindo e concluindo a propósito da sua grande paixão, a capoeira.

Inserido em ambiente de cultura predominantemente oral, repetia a tradição, sem deixar de indagar a credibilidade das informações, cotejando-as com sua experiência pessoal e tentando incluí-las no contesto da época.
Mestre Canjiquinha
Washington Bruno da Silva nasceu em Salvador, em setembro de 1925 e seu "mestre" foi Raimundo Aberrê. O apelido foi dado por um amigo, inspirado no Samba "Canjiquinha quente", cantado por Carmem Miranda. Segundo esse amigo, era a única música que Washington sabia cantar, por isso começou chamá-lo de Canjiquinha, e pegou.

Excelente capoeirista, Canjiquinha também se destacava pela sua performance no canto e nos instrumentos. Grande improvisador, contribuiu muito na adaptação das cantigas populares. Dos capoeiristas, Canjiquinha foi o mais requisitados para exibições. Chegou a atuar no cinema, nos longa-metragens "Os Bandeirantes", "Barravento", "O Pagador de Promessas", "Senhor dos Navegantes", "Samba", entre outros.
Mestre Caiçara
Antonio Conceição Moraes, Mestre Caiçara, nasceu em Cachoeira de São Felix, no Recôncavo Baiano, em 08 de Maio de 1924. Foi discípulo de Antonio Rufino dos Santos (Aberre de Santo Amaro e Waldemar de Perovaz) e era membro do Conselho de Mestres da Associação Brasileira de Capoeira Angola.

Longas décadas atrás, preocupados com os crescentes pedidos para comparar a Capoeira com as demais lutas, Mestre Caiçara já tinha seu veredicto: "Cada qual com seu cada qual" eliminando assim de vez o falso problema.

Pouco depois, em São Paulo, aconteceu que, convidado por um ex-aluno para dar uma "volta do mundo", Caiçara notou que o "garoto estava jogando com um certo atrevimento", foi o que bastou para o mestre dar uma cabeceira (cabeçada) desconcertante, jogando seu ex-aluno fora da roda e aproveitando, mais uma vez, para professorar:


"Roupa de homem não da em menino; esses meninos de hoje, mal sabem soletrar já pensam que sabem ler"

Não foram poucas as vezes que Caiçara provou sua maestria, inclusive como cantador, afirmação que pode ser facilmente comprovada pelos discos que gravou.

Nada mal para quem, na juventude, muito forte e ousado, limitava-se a comandar as principais figuras de uma determinada área de meretrício de Salvador. Mais tarde, mestre de capoeira, mestre da própria vida, e, certamente com as bênçãos de todos os Orixás da Bahia, Caiçara começou a fazer um exemplar trabalho comunitário com os meninos de rua.

Foram seus contra-mestres Sergipe e Fernandinho.

Mestre Cobrinha Verde
Rafael Alves França, mandingueiro respeitadíssimo no seu percurso por este mundo de meu Deus. Nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA). Com 4 anos de idade iniciou-se na Capoeira pelas mãos de Besouro, seu primo carnal. Além de seu primeiro mestre, Cobrinha Verde também bebeu da sabedoria de Maitá, Licurí, Joité, Dendê, Gasolina, Siri de Mangue, Doze Homens, Espiridião, Juvêncio Grosso, Espinho Remoso, Neco, Canário Pardo e Tonha. Foi 3° Sargento no antigo Quartel do CR em Campo Grande, tendo participado também da Revolução de 32 entre outras pelejas. Durante muitos anos ensinou em seu Centro Esportivo de Capoeira Angola Dois de Julho, com sede no Alto de Santa Cruz, s/ n°, no Nordeste de Amaralina.
Mestre Traira
José Ramos Do Nascimento, Capoeira de fama na Bahia, marcou época e ganhou notabilidade ímpar na arte das Rasteiras e Cabeçadas. No disco fonográfico, produzido pela Editora Xauã, intitulado "Capoeira" - hoje uma das raridades mais preciosas para os estudiosos e adeptos desta Arte - tem presença marcante envolvendo a todos os ouvites. Sobre a beleza e periculosidade do seu jogo, assim se referiu Jorge Amado: "Traíra, um cabloco seco e de pouco falar, feito de músculos, grande mestre de capoeira. Vê-lo brincar é um verdadeiro prazer estético. Parece bailarino e só mesmo Pastinha pode competir com ele na beleza dos movimentos, na agilidade, na rigidez dos golpes. Quando Traíra não se encontra na Escola de Waldemar, está ali por perto, na Escola de Sete Molas, também na Liberdade". Mestre Traíra também teve importante participação no filme "Vadiação", de Alexandre Robatto Filho, produzido em 1954, junto aos outros grandes capoeiristas baianos como Curió, Nagé, Bimba, Waldemar, Caiçara, Crispim e outros."

A CAPOEIRA ANGOLA

Os toques

Hoje é impossível imaginar a capoeira sem um acompanhamento musical, ou melhor, sem um ritmo ditando o jogo de capoeira. Há no acompanhamento musical toques que se poderia chamar de gerais, porque são comuns a todos os capoeiras, os quais são executados ao lado de outros que são particulares de determinada academia ou mestre de capoeira. Também acontece e não raro, um mesmo toque, apenas com denominação diferente entre os capoeiras. Sendo assim, conforme o mestre, mesmo dentro do estilo angola, estes toques podem variar. Segundo Waldeloir Rego:


Para Pastinha os toques são:

São Bento grande, São Bento pequeno, Angola, Santa Maria, Cavalaria, Amazonas e Iuna.

Já para Waldemar da Paixão:

São Bento grande, São Bento pequeno, Angola, Benguela, Ave Maria, Santa Maria, Cavalaria, Samongo, Angolinha, Gegê, Estandarte e Iuna.


Para Canjiquinha:


Angola, Angolinha, São Bento grande, São Bento pequeno, Santa Maria, Ave Maria, Samongo, Cavalaria, Amazonas, Angola em Gegê, São Bento grande em gegê, Muzenza, Jogo de dentro e Aviso.


Como se vê, em todos eles há uma constância nos toques Angola, São Bento grande, São Bento pequeno, Cavalaria, Iuna e Benguela. Além disso, os toques divergentes destes, raramente constituem um toque totalmente diferente dos demais. Via de regra é um já existente apenas com outro rótulo ou uma ligeira inovação introduzida pelo tocador, fazendo com que se de um novo nome.
INSTRUMENTOS

Segundo o que se tem escrito, o acompanhamento musical da capoeira, desde os primórdios até nossos dias já foi feito pelo berimbau, caxixi pandeiro, adufe, atabaque, reco-reco e agogô, sendo todos, com exceção do adufe, utilizados atualmente na capoeira angola para constituir a bateria.

Berimbau
A origem do nome berimbau e do próprio instrumento ainda é obscura. Há registros desse instrumento em vários cantos do mundo, inclusive na África, conforme observação e documentação de Hermenegildo Carlos de Brito Capello e Roberto Ivens, quando da viagem empreendida pelos territórios de Iaca e Benguela, durante os anos de 1877-1880.

Instrumentos musicais encontrados em Angola

Chefe africano, adaptada de José Redinha. Distribuição étnica de Angola. 7a. ed. Instituto de Investigação Científica de Angola, Centro de Informações e Turismo de Angola, 1971.

Lundamba - reco-reco - bordão escavado e canelado; tocado com uma vara de madeira; 80 cm de comprimento
Kariari - arco musical - vara de madeira encurvada com uma corda; com uma vareta são tocadas as ranhuras do arco fazendo vibrar a corda; a caixa de ressonância é a boca do tocador
Tocador de arco musical
Ilustrações: reprodução

1,2 - Museu do Dundo. Subsídios para a história, arqueologia e etnografia dos povos da Lunda. Campanha etnográfica ao Tchiboco. Anotações e documentação gráfica. Lisboa, Cia. de Diamantes de Angola, 1955.
3,4 - Museu do Dundo. Flagrantes da vida na Lunda. Lisboa, Cia. de Diamantes de Angola, 1958.
Menina com berimbau
Além destes, nos primórdios da colonização, o Brasil conheceu o outro tipo de berimbau, tocado com a boca, conhecido na América Latina como trompa de Paris.
Atualmente é o principal instrumento da capoeira, o qual, numa roda dita o ritmo e comanda o jogo. Normalmente uma roda é formada por três tipos de Berimbau, o gunga, com som mais grave, o médio ou roseiro, com som intermediário e o viola, com som mais agudo, sendo o tamanho da cabaça o fator determinante para tais diferenças de afinação.
Caxixi
É tocado com a baqueta e o dobrão (uma peça de metal, antigamente uma moeda), com acompanhamento do caxixi.

Nada de concreto se sabe a respeito da origem do nome, nem do instrumento, apesar de possivelmente, ter influências africanas e dos indígenas brasileiros em sua construção.

Usado com o berimbau, dá um segundo momento no ritmo da baqueta no fio de aço.
Pandeiro
Instrumento muito antigo e de origem incerta. Entrou no Brasil por via portuguesa e já na primeira procissão que se realizou na Bahia (Corpus Christi) em 13 de junho de 1549, se fez presente, o que já era hábito em Portugal.

Essa aculturação e aproveitamento do pandeiro se verificou também entre os negros da América Latina, especialmente o cubano, onde o pandeiro é um dos instrumentos da liturgia nagô de Cuba.
Atabaque
O termo atabaque é de origem árabe, sendo um instrumento oriental muito antigo entre os persas e os árabes, porém divulgado na África. Embora os africanos já conhecessem o atabaque e até o tenham trazido da África, crer-se que ao chegarem ao Brasil já o encontrasse trazido por mãos portuguesas para ser usado em estas e procissões religiosas em circunstâncias idênticas ao pandeiro.

O atabaque acompanha o berimbau Gunga na marcação do ritmo do jogo.
Reco-reco
O reco-reco parece ter origem africana, pois é encontrado em várias manifestações culturais afro-brasileiras. Instrumento de percussão fina enriquece um conjunto com detalhes e variedade sonora. Na Capoeira Angola o reco-reco acrescenta esta variedade às vibrações únicas do agogô.

Todos os grupos humanos possuem os seus próprios instrumentos musicais, mas também encontramos intercâmbios, influências e bases comuns. "Fazedores de barulho" harmônicos, como os reco-recos e chocalhos, são encontrados em muitos grupos, associados à alegria e às ligações espirituais.
Agogo
É um instrumento de percussão de ferro que entrou no Brasil por via Africana. O termo agogô pertence à língua nagô e quer dizer sino. Tem a função de ser um contraponto rítmico aos berimbaus e ao atabaque.

O CANTO

De um ponto de vista amplo, a cantiga de capoeira tanto pode ser o enaltecimento de um capoeirista que se tornou herói pelas bravuras que fez quando em vida, como pode narrar fatos da vida cotidiana, usos, costumes, episódios históricos, a vida e a sociedade na época da colonização, o negro livre e o escravo na senzala, na praça e na comunidade social, além de sua atuação na religião, no folclore e na tradição. Louvam-se os mestres de capoeira e evocam-se as terras da África de onde procederam.

Fenômeno interessante a se observar em boa parte das cantigas de capoeira é o diálogo. Não é o diálogo normal entre duas pessoas presentes, mas o entre uma pessoa humana presente e outra coisa ausente, onde as indagações são feitas e respondidas por uma pessoa só. As cantigas de capoeira fornecem valiosos elementos para o estudo da vida brasileira, em suas várias manifestações, os quais podem ser examinados sob o ponto de vista lingüístico, folclórico, etnográfico e sócio-histórico.

Lingüisticamente falando, as cantigas fornecem detalhes da linguagem corrente do Brasil, principalmente no campo fonético, sintático e semântico. O elemento folclórico é também algo marcante e em todas elas soa freneticamente aos ouvidos de quem a escuta. Dentro do aspecto histórico, inúmeros acontecimentos são narrados, sendo a Guerra do Paraguai muito citada. Já pelo aspecto social, notam-se detalhes do comportamento não só nas boas maneiras mas como é o caso da sua saudação e comprimentos característicos: como vai? Como sta? Como passo? Como vai vosmicê? Outro detalhe importante relatado pelas canções é a indumentária e a moda em geral na vida social do Brasil.


O JOGO

jogo da capoeira angola é algo difícil, complicado e requer uma atenção extraordinária, senão pode ser fatal para um dos jogadores. O capoeira tem que ser o mais possível leve, ter grande flexibilidade e gingar o tempo todo durante o jogo. A ginga é um elemento fundamental. Da ginga é que saem os golpes de defesa e de ataque, não só os golpes comuns a todos os capoeiristas, como os pessoais e os improvisados.

Durante o jogo, uma coisa importante a ser observada é o comportamento do capoeira, onde os mesmos não se ligam uns aos outros e nem se arreiam no chão. Apenas tocam o chão e a si mutuamente. Somente na capoeira regional é que os jogadores se ligam, devido aos golpes ligados ou cinturados, provenientes do aproveitamento de lutas estrangeiras na capoeira.

O jogo entretanto, pode variar de academia para academia e de capoeirista para capoeirista, apesar de existir uma conduta geral entre os capoeiras mais famosos segundo Waldeloir Rego:

“Sentados ou de pé, tocadores de berimbau, pandeiro e caxixi, formando um grupo; adiante capoeiras em outro agrupamento, seguido do coro e o público em volta, vêm dois capoeiras, agacham-se em frente dos tocadores e escutam atentamente a uma ladainha, que é a louvação dos feitos ou qualidades de capoeiristas famosos ou um herói qualquer. Dando seqüência ao jogo da capoeira, vem o que chamam de canto de entrada. Terminado o canto de entrada os capoeiras se benzem e iniciam o jogo propriamente dito ou o começo da luta. A certa altura, quebram o ritmo em que vinham e introduzem um outro, chamado corridos, que são cantos com toque acelerado. É hábito da assistência atirar ao chão algumas cédulas, para os capoeiristas, em saltos estratégicos, apanharem com a boca. Esse dinheiro após o jogo, o mestre divide com todos os discípulos, ficando, assim, garantido o transporte de cada um, para voltar para casa.”