GRANDES MESTRES DA CAPOEIRA ANGOLA |
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Contava ainda o tal menino com o apoio de sua mãe, que o incentivava a bater mais. Ao voltar para casa, eu ainda apanhava pela segunda vez, de minha madrinha, por causa da demora em trazer as compras ou por estar com a roupa rasgada. Então, eu ia chorar de vergonha e tristeza. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu à briga da gente. ‘Vem cá meu filho’, ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. ‘Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando arraia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muito valia’. Foi isso que o velho me disse e eu fui. Ele arrastava os móveis da sala e deixava um espaço livre onde me ensinava a jogar capoeira, todo dia um pouco e aprendi tudo. Ele costumava dizer: ’não provoque, menino. Vai botando devagarzinho ele sabedor do que você sabe’. Um ano depois, encontrei o menino na rua. Ele, então me perguntou: ’Estava viajando ou estava se escondendo com medo de mim?’ Eu, então, lhe respondi: ’Estava com medo!’. A mãe do menino já se encontrava na porta, sorrindo, divertida, esperando o inicio do espetáculo, quando seu filho venceria novamente a batalha. Mas, para sua surpresa, aconteceu o contrário. Assim que o menino levantou a mão para desferir a pancada, com um só golpe, mostrei-lhe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival. O menino ficou até meu amigo, de admiração e respeito. O velho africano chamava-se Benedito e quando me ensinou o jogo tinha mais idade do que eu hoje.” Começou a ensinar capoeira aos 12 anos, na Escola de Aprendiz de Marinheiro, para seus colegas. Depois em 1910, saiu da marinha e foi ensinar capoeira a Raymundo Aberrê, além de trabalhar no Diário da Bahia. Em 1941, em uma tarde de domingo, seu ex-aluno Aberrê o chamou para uma roda de capoeira no Gingibirra, na Ladeira das Pedras, onde se encontravam os maiores mestres da Bahia. Mestre Pastinha o acompanhou e ficou a vadiar à tarde com os outros mestres. Ao final da tarde, o mestre Amorzinho, que era um dos maiores mestres da Bahia, entregou a capoeira angola ao Mestre Pastinha, para que ele tomasse frente e a colocasse em seu devido lugar. Assim começou o CECA –Centro Esportivo de Capoeira Angola - em 1952, no largo do Pelourinho. O uniforme do CECA era preto e amarelo que eram as cores do time de futebol Ypiranga, que tinham Mestre Pastinha como torcedor fanático. Ele treinou grandes nomes como: João Grande, João Pequeno, Gildo Alfinete, Albertino da Horta, Natividade, e outros. Pastinha tinha admiradores ilustres como o escritor Jorge Amado, o pintor Caribe, o filósofo Jean-Paul Sarte e o ator Jean-Paul Belmodo. Jorge Amado escreveu inúmeras vezes sobre seu amigo: “Mestre Pastinha, mestre da Capoeira Angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda sua picardia, é um dos seus ilustres, um de seus obas, de seus chefes. É o primeiro em sua arte; senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal. Em sua escola, no Pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira, da mais real e da melhor. Toda vez que assisto esse homem de 75 anos jogar Capoeira, dançar samba, exibir sua arte com o ela de um adolescente, sinto toda invencível força do povo da Bahia, sobrevivendo e construindo apesar da penúria infinita, da miséria, do abandono. Em si mesmo o povo encontra forças e produz sua grandeza. Símbolo e face desse povo é Mestre Pastinha”
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Em 1971, aos 82 anos, cego, mandaram-lhe mudar do Pelourinho dizendo que haveria reformas no conjunto arquitetônico, e que poderia voltar quando tudo terminasse. Perdeu quase todas suas coisas que ficavam na Academia. Passou viver com uma quantia simbólica que pouco lhe sustentava. Muito doente, mudou-se para um quarto úmido e sem janelas. Quando o dia em que acabara as reformas e ele voltaria a dar aulas na Academia, Pastinha ao descobrir que a prefeitura havia desapropriado o imóvel, doado ao Patrimônio Histórico da Fundação do Pelourinho, que vendeu ao Senac, entrou em profunda depressão. Em 13 de novembro de 1981, veio a falecer aos 92 anos dos quais 82 dedicados à causa da capoeira. Morreu cego e abandonado, D. Romélia que cuidou dele até sua morte. A maneira de pensar Sobre a arte da Capoeira “O capoeirista deve ter em mente que a capoeira não visa, exclusivamente, preparar o indivíduo para o ataque ou defesa contra uma agressão, mas, desenvolver, ainda, por meio de exercícios físicos e mentais um verdadeiro desportista, um homem que sabe dominar-se antes de dominar o adversário. O capoeirista deve ser calmo, tranqüilo, calculista. Além dos exercícios de ordem física deve exercitar-se mentalmente, imaginando situações críticas as mais diversas, que procurará resolver. Se algum dia se encontrar em tais emergências terá maiores probabilidades de vitória. A Capoeira exige um certo misticismo, lealdade com os companheiros de ‘jogo’ e obediência absoluta às regras que o presidem” Sobre a sua capoeira “Pratico a verdadeira Capoeira Angola e aqui os homens aprendem a ser leais e justos. A lei de Angola que herdei de meus avós é a lei da lealdade. A Capoeira Angola, a que aprendi, não deixei mudar aqui na Academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são os meus” “Mas o que serve para a defesa também serve para o ataque. A capoeira é tão agressiva quanto perigosa. Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a Polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar, eu lembrava do Mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira e queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo” “E jogar precisa ser jogado sem sujar a roupa, sem tocar o corpo no chão. Quando eu jogo, até pensam que o velho está bêbado, porque fico todo mole e desengonçado, parecendo que vou cair. Mas ninguém ainda me botou no chão, nem vai botar” Sobre o capoeirista
“Saem daqui da Academia sabendo tudo. Sabendo que a luta é muito maliciosa e cheia de manhas, que a gente tem de ter calma. Que não é uma luta atacante, ela espera. Capoeirista nunca dizia a ninguém que lutava. Era homem astuto e ardiloso, como a própria luta, que se disfarçou com a dança para sobreviver depois que chegou de Angola. Capoeirista é mesmo muito disfarçado. Contra a força só isso mesmo. Está certo” “O capoeirista é um curioso, tem mentalidade para muita coisa, sabendo aproveitar de tudo que o ambiente lhe pode proporcionar. E a Capoeira Angola só pode ser ensinada sem forçar a naturalidade da pessoa. O negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada um. Ninguém luta do meu jeito, mas no deles há toda a sabedoria que aprendi. Cada um é cada um” Sobre a marginalização da capoeira “Os negros usavam capoeira para defender sua liberdade. No entanto, malandros e gente infeliz descobriram nesses golpes um jeito de assaltar os outros, vingar-se de inimigos e enfrentar a polícia. Foi um tempo triste da capoeira. Eu conheci, eu vi. Nas bandas das docas... Luta violenta, ninguém a pôde conter. Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da capoeira, mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica? E a faca? E os canhões? E as bombas? A Capoeira Angola parece uma dança, mas não é não. Pode matar, já matou. Bonita! Na beleza está contida sua violência” Sobre as regras “A capoeira exige um certo misticismo, lealdade com os companheiros de jogo e obediência absoluta às regras que o presidem. Acreditamos que estas recomendações sintetizam os fundamentos da Capoeira Angola. Infelizmente grande parte dos nossos capoeiristas tem conhecimento muito incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protege aqueles que o praticam para que não descambe no excesso do vale tudo, note bem, estou falando em sentido de demonstração, e não de desafio, que sempre traz conseqüências às vezes desastrosas; tira toda a beleza e o brilho da capoeira, e o capoeirista perde sua capacidade por falta de explicação. Meus caros amigos, não podia deixar de dizer a verdade, entre estas linhas, é minha dá de ofício, capoeirista sou. Note bem, destruir? É um covarde, é mostrar sua fraqueza. Se fugir é ser fujão do que é seu. Os mestres não podem ensinar com descortesia nem de modo agressivo, não. O bom capoeirista nunca se exalta, procura sempre estar calmo para poder refletir com precisão de acerto; não discute com seus camaradas ou alunos, não toma jogo sem ser sua vez para não aborrecer os companheiros, e daí surgir uma rixa; ensinar aos seus alunos sem procurar exibição de modo agressivo, e nem apresentar-se de modo descortês, sem amor à nossa causa que é causa da moralização e aperfeiçoamento dessa luta tão bela quanto útil à nossa educação física...” “Não se pode esquecer do berimbau. Berimbau é o primitivo mestre. Ensina pelo som. Dá vibração e ginga no corpo da gente. O conjunto de percussão com o berimbau não é arranjo moderno, não, é coisa dos princípios. Bom capoeirista, além de jogar, deve saber tocar berimbau e cantar” “Segundo ele, os admiradores deveriam integrar o universo da capoeira como parcela indispensável para o reconhecimento do valor de um capoeirista, afinal a roda não é só composta pelos que jogam, contribuindo para a ampliação do mundo da capoeira” Frederico José de Abreu “Vejamos meus amigos; o brilho de um capoeirista é só quando se bate em igualdade de condições, e o público ovaciona a altura, reconhecendo seu valor”
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| Na academia onde ensino, somos uma família, pois um ajuda o outro", lembra. João cultiva experiências anteriores, adquiridas em viagens pela África e Europa, fazendo shows que representavam a Bahia, como: capoeira, candomblé, samba e Maculelê. "Pelo mundo nós apresentávamos tipos de capoeira como o Exú, Capoeira de Candini e Capoeira de Rua (jogo fechado). O que faço nos shows, não faço nas ruas ou nas academias. O angoleiro é malicioso e possui um lado positivo e um lado negativo, conforme o adversário". Explica o Mestre. A Capoeira Angola é uma dança africana, a "dança da zebra", trazida pelos escravos que ficavam escondidos em suas senzalas, exercitando. Quando seus chefes chegavam, eles praticavam a dança. Faziam isto para serem libertados. Então a capoeira passou a ser uma arte, uma dança, cultura e profissão. Angola é a mãe de todas as Danças e lutas. Os africanos possuem muita cultura e raiz para oferecer. O Mestre João Grande conta que muitos capoeiras já não jogam mais por amor. Alguns dão aulas sem pensar em capoeira. "O meu gênero era dança e folclore, até o dia em que o Pastinha me deu o titulo de mestre", lembra. Depois que se aposentou passou a dar aulas na Bahia, inclusive para os meninos de rua. Costumava dizer que começou a jogar capoeira por ordem de Deus e seus orixás. "Quando eu tinha 10 anos, passaram dois meninos por mim e fizeram o corta-capim. Prestei atenção, só de longe. Depois meu bisavô me explicou que era uma dança nagô, que veio da África", acrescenta. João Grande recorda que percorreu, por muito tempo, algumas regiões, perguntando sobre o corta-capim, mas ninguém soube lhe explicar em detalhes. Até que por fim, ele encontrou o Mestre João Pequeno, que lhe mostrou o golpe e respondeu que aquilo era capoeira. O aprendizado da arte aconteceu com o Mestre Pastinha. "Ele era calmo e não gostava de violência. O Pastinha foi meu mestre, avô e pai de capoeira", garante João Grande. A vontade de voltar para a Bahia é imensa. O mestre lamenta que a capoeira esteja ameaçada por falta de apoio à cultura brasileira. "Enquanto isso, vou ficando por aqui, mesmo curtindo a saudade da Bahia. Deus me dá força! Por isso, acredito que posso dar continuidade ao meu trabalho, divulgando cada vez mais nossa cultura nos Estados Unidos", finaliza. |
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Os capoeiristas daqui, os mestres, faziam berimbau com casca. O arame era arame de cerca, não era arame de aço. Depois eles queimavam o pneu e tiravam aquele arame enferrujado, quebrava. Eu inventei abrir na raça pra sair cru. Cheguei a fazer berimbau envernizado. Cheguei a fazer berimbau em branco (...) Depois eu inventei pintar e passei a fazer berimbau pintado. Sou conhecido nisso.” Infelizmente, na sua velhice Mestre Waldemar não teve o reconhecimento que merecia, e não foram muitos os capoeiristas mais jovens que tiveram a honra de conhecê-lo e ouvi-lo contar suas histórias. Morreu na pobreza, como outros capoeiristas célebres, como Mestre Pastinha. |
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Apesar da baixa escolaridade, Noronha, era inteligente, observador e arguto, como a maioria dos mestres e capoeiristas de sua época, observando, analisando, deduzindo e concluindo a propósito da sua grande paixão, a capoeira. Inserido em ambiente de cultura predominantemente oral, repetia a tradição, sem deixar de indagar a credibilidade das informações, cotejando-as com sua experiência pessoal e tentando incluí-las no contesto da época. |
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A CAPOEIRA ANGOLA Os toques Hoje é impossível imaginar a capoeira sem um acompanhamento musical, ou melhor, sem um ritmo ditando o jogo de capoeira. Há no acompanhamento musical toques que se poderia chamar de gerais, porque são comuns a todos os capoeiras, os quais são executados ao lado de outros que são particulares de determinada academia ou mestre de capoeira. Também acontece e não raro, um mesmo toque, apenas com denominação diferente entre os capoeiras. Sendo assim, conforme o mestre, mesmo dentro do estilo angola, estes toques podem variar. Segundo Waldeloir Rego: |
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Já para Waldemar da Paixão: São Bento grande, São Bento pequeno, Angola, Benguela, Ave Maria, Santa Maria, Cavalaria, Samongo, Angolinha, Gegê, Estandarte e Iuna. Para Canjiquinha: Angola, Angolinha, São Bento grande, São Bento pequeno, Santa Maria, Ave Maria, Samongo, Cavalaria, Amazonas, Angola em Gegê, São Bento grande em gegê, Muzenza, Jogo de dentro e Aviso. Como se vê, em todos eles há uma constância nos toques Angola, São Bento grande, São Bento pequeno, Cavalaria, Iuna e Benguela. Além disso, os toques divergentes destes, raramente constituem um toque totalmente diferente dos demais. Via de regra é um já existente apenas com outro rótulo ou uma ligeira inovação introduzida pelo tocador, fazendo com que se de um novo nome. |
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| INSTRUMENTOS
Segundo o que se tem escrito, o acompanhamento musical da capoeira, desde os primórdios até nossos dias já foi feito pelo berimbau, caxixi pandeiro, adufe, atabaque, reco-reco e agogô, sendo todos, com exceção do adufe, utilizados atualmente na capoeira angola para constituir a bateria. |
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Instrumentos musicais encontrados em Angola Chefe africano, adaptada de José Redinha. Distribuição étnica de Angola. 7a. ed. Instituto de Investigação Científica de Angola, Centro de Informações e Turismo de Angola, 1971. |
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| Além destes, nos primórdios da colonização, o Brasil conheceu o outro tipo de berimbau, tocado com a boca, conhecido na América Latina como trompa de Paris. | |||||||
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O CANTO De um ponto de vista amplo, a cantiga de capoeira tanto pode ser o enaltecimento de um capoeirista que se tornou herói pelas bravuras que fez quando em vida, como pode narrar fatos da vida cotidiana, usos, costumes, episódios históricos, a vida e a sociedade na época da colonização, o negro livre e o escravo na senzala, na praça e na comunidade social, além de sua atuação na religião, no folclore e na tradição. Louvam-se os mestres de capoeira e evocam-se as terras da África de onde procederam. |
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O JOGO jogo da capoeira angola é algo difícil, complicado e requer uma atenção extraordinária, senão pode ser fatal para um dos jogadores. O capoeira tem que ser o mais possível leve, ter grande flexibilidade e gingar o tempo todo durante o jogo.
A ginga é um elemento fundamental. Da ginga é que saem os golpes de defesa e de ataque, não só os golpes comuns a todos os capoeiristas, como os pessoais e os improvisados. |
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