Ao tentarmos compreender a origem e o desenvolvimento dessa manifestação afro-brasileira nos deparamos com uma questão crucial, sendo importante lembrar que, no governo de Deodoro da Fonseca, Ruy Barbosa, o então ministro da fazenda ordenou a queima de todos os documentos referentes ao sistema colonial escravagista, sendo essa decisão adotada sob a alegação de que tais documentos seriam um retrato da vergonha nacional, representado pela escravidão de negros africanos.
Desta forma, muito de sua história se perdeu, ou ao menos se tornou um pouco obscura, gerando diferentes teorias e maneiras para explicar esta arte tão rica e complexa.


ORIGEM

Talvez seja este exatamente o ponto onde tem-se início as divergências de opiniões acerca de muitas questões onde a capoeira está envolvida; sua origem.
Teria sido ela trazida pelos africanos da África, mais especificamente de Angola, ou os negros a teriam inventado no Brasil?
Dentro da primeira possibilidade destaca-se a idéia de que a capoeira teria sua origem na África, na “Dança N’Angolo” ou simplesmente N’Agolo, uma dança folclórica do sul da Angola. Nesta dança os guerreiros lutavam entre si ao som dos tambores para disputar a mulher de sua preferência que tivesse atingido a idade para se casar. Os movimentos são inspirados nos coices das lutas das zebras e representam um ritual de transição, onde as jovens adolescentes passam a ser reconhecidas como mulheres perante a comunidade. Segundo João Grande, discípulo de Mestre Pastinha, que presenciou a dança de N’Angolo em Dakar em 1966, alguns movimentos da Capoeira são exatamente os mesmos do ritual africano: negativa, meia lua de frente, meia lua de costas, cabeçada, rabo de arraia...
Entretanto, segundo Waldeloir Rego, tudo leva a crer que a capoeira seja uma invenção dos africanos no Brasil, desenvolvida por seus descendentes afro-brasileiros, tendo em vista uma série de fatores colhidos em documentos escritos e, sobretudo, no convívio e diálogo constante com capoeiras antigos da Bahia. Uns dos indícios mais utilizados para justificar tal teoria é o fato de não existir relatos da existência de capoeira em nenhum outro país onde também houve o tráfico de escravos africanos e nem tão pouco em qualquer país do continente africano.br> Dentro da última possibilidade, durante decênios praticantes e estudiosos deram créditos a versões sem nenhum fundamento, como a de que o berço da capoeira era palmares (quilombo de escravos na divisa de Pernambuco e Alagoas, na serra da Barriga), e que ela era a arma dos escravos fugitivos.
Estudos atuais apontam como hipótese mais provável que ela foi o somatório de diversas danças rituais praticadas em um amplo arco da África que abasteceu os negreiros e que se encontraram no ambiente específico da escravidão brasileira. Registros documentários de Angola na era da escravidão relatam práticas lúdicas e marciais tradicionais que se parecem muito com a capoeira que chegou com os navios negreiros. Desta forma a capoeira seria um mosaico, formado por diversas danças africanas ancestrais que teriam amalgamado em definitivo na terra americana.br> Documentos históricos brasileiros são insistentes em mostrar a capoeira como fenômeno urbano da cultura escrava. As indicações documentais mais antigas remontam ao século XVII, quando da gênese urbana na colônia. Então podemos afirmar ainda hipoteticamente que o nascimento da capoeira como a conhecemos hoje em dia se deu nas primeiras grandes cidades do país, Salvador e Rio de Janeiro, ambiente propício, a partir de 1700.
Outra questão é o lugar do nascimento. Fontes seguras da capoeira antiga repousam no Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Luís do Maranhão.br> Já em relação à origem do nome Capoeira, a polêmica permanece. Segundo Waldeloir Rego, o vocábulo foi registrado pela primeira vez em 1712 no Vocabulário Português e Latino de Rafael Bluteau e desde então vem sendo motivo de discussões.br> A primeira hipótese para a explicação da origem etmonológica do termo, surge em 1880 com José de Alencar propondo que o vocábulo teria sua origem no Tupi onde “caa-apuam-era” significaria mato já cortado. Já Beaurepaire Rohan sugere sua origem também no Tupi, mas como “co-puera” significando roça velha. Uma terceira hipótese fica a cargo de Macedo Soares que afirma que a origem do nome seria Guarani onde “caá-puera” equivaleria a mato miúdo, nascido em lugar onde existiu mata virgem. Desta forma o termo Capoeira como o empregamos hoje, se refere ao ambiente onde teria aparecido a tal arte como forma de resistência dos escravos à captura dos capitães-do-mato, que diziam aos feitores ao retornarem da busca frustrada: O nego me pegou na capoeira!
Outras relações também foram colocadas, como a do nome ser originado dos cestões utilizados para guardar capões ou ainda outra que associa o vocábulo ao nome da ave capoeira (Odontophorus capuera spix), comparando os passos da luta do animal macho para defender seus domínios com os movimentos dos capoeiristas.

DESENVOLVIMENTO
A Capoeira dos Escravos.
A história da capoeira começa no ano de 1500 no período da descoberta do Brasil pelos portugueses. A terra brasileira extremamente próspera e de território muito extenso, exigia ampla mão de obra para o trabalho na lavoura, na indústria da cana de açúcar e nas minerações. A solução encontrada estava na importação de mão de obra escrava. Os portugueses capturavam os negros nos diversos países do continente africano, forçando-os a trabalhar nas suas colônias. Assim tem início a grande diáspora negra e o tráfico de escravo da África para o Brasil que marca também a introdução da cultura africana no território brasileiro. Logo que chegaram ao Brasil os negros eram direcionados para as diversas atividades ao longo do vasto território brasileiro e muitas vezes eram separadas as tribos, irmãos e famílias inteiras. O negro não tinha valor como ser humano e era visto como um animal. Eram maltratados e viviam em condições precárias sob punições, açoites e constante vigilância por parte de seus senhores. É nesse ambiente que a história se desenrola entre os anos de 1500 e 1800, com o negro em condições de completa subserviência.

Segundo Muniz Sodré – escritor, jornalista, sociólogo, professor titular da UFRJ e discípulo de Mestre Bimba – “desde o início da colonização até meiados do século XIX, era de interesse dos administradores coloniais e donos de escravos permitir as manifestações culturais negras, não só como válvula de escape para as tensões inerentes à escravidão, mas principalmente para acentuar as rivalidades tribais, que não eram tão fortes a ponto de provocar guerra entre os grupos, mas ainda assim existiam. Era dividir para reinar”. Nesse período as manifestações eram diversas, mas dissociadas em termos de caracterizar a capoeira como a prática que conhecemos atualmente. Existem relatos de uma dança guerreira, com fintas, pulos e cabeçadas, existia o tocador de berimbau, mas a ligação do instrumento ao “jogo guerreiro” não foi retratado em nenhum momento.

Jogar capoeira ou danse de la guerre (Rugendas, 1834)

Apenas a partir de 1810 é que vamos começar a perceber o despertar da capoeira da forma que conhecemos. Nessa época inicia-se uma nova relação entre a comunidade negra e a classe dominante. Segundo Nestor Capoeira, autor do clássico “Capoeira, os fundamentos da malícia”, o período de 1810 a 1830 é um marco na história da cultura negra do Brasil, “quando os cultos negros começaram a ser praticados abertamente e em seu próprio espaço (terreiros), e o Estado brasileiro e a comunidade branca passaram de uma posição de consentimento para repressão dessas manifestações.” A comunidade negra, consciente do fim da esperança de uma tomada do poder pelas armas e da idéia de uma volta para a terra natal diante da abolição do tráfico negreiro em 1850, volta-se para sua situação e perspectivas dentro do Brasil. O negro fortifica suas raízes e tradições e se apóia em sua cultura e história como forma de resistência e sobrevivência dentro do território brasileiro. Nesse momento a conscientização, tanto do branco como do negro, da impossibilidade de uma revolta negra, vistos o crescente aparato militar e noção de consolidação do domínio territorial por parte do Estado, espanta o temor do negro enquanto grupo armado transferindo-se para um temor do negro enquanto indivíduo e aglomerado de pequenos grupos.
O período de 1830 a 1888 é um período conturbado politicamente para o Brasil e as mudanças afetam diretamente a situação da população negra no país e portanto da capoeira. Segundo Júlio César de Souza Tavares – historiador, mestre em sociologia, chefe do departamento de comunicação da UFF e capoeirista – a partir de 1840 a Inglaterra passou a incentivar a criação de novos mercados consumidores para os seus produtos e começou a boicotar o tráfico de escravos, já que a mão de obra assalariada era, dentro desta política, muito mais interessante que a escrava. A pressão torna-se tão grande dentro do Brasil que em 1850 publicou-se a lei Eusébio de Queirós, proibindo-se o tráfico de escravos. Neste momento a agricultura canavieira começou a entrar em decadência no Nordeste, e a cafeeira do Sudeste começou a crescer, resultando em um grande aumento do tráfico interno. Esta migração não era só de negros escravos, mas também de negros alforriados sobre os quais caiu uma forte vigilância do Estado. Ao longo deste processo cresceu também a pressão abolicionista que resultou na declaração da lei do Ventre Livre em 1871 e a lei dos Sexagenários em 1885. Nesse meio tempo, até a assinatura da Lei Áurea em 1888, a situação nas cidades tornou-se caótica. Os negros estavam nas ruas, cresceram o número de negros libertos perambulando pelas ruas, o número de escravos fugitivos e cresceram também o número de quilombos na periferia das cidades.

A Capoeira Marginalizada

  Após a abolição da escravatura e a proclamação da república, a população negra não encontrou lugar dentro da sociedade e passou a ser reprimida através do código Penal da República de 1890. Marginalizados os negros levaram consigo a capoeira, que passou a ser proibida por lei. Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, promovendo tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal: Pena: De prisão celular de dois meses a seis meses. (Barbieri, 1993, p.118). Segundo Sodré (1983), as punições aplicadas eram reclusão na ilha Fernando de Noronha e castigos corporais, tais como chibatadas.
  Neste ponto da história, a capoeira se desenvolveu de maneiras distintas em algumas cidades. No Rio, a estrutura que já se fazia valer antes da abolição permaneceu, com a capoeira sendo marca da tradição rebelde da população trabalhadora urbana na maior cidade do Império do Brasil, que reunia escravos livres, brasileiros e imigrantes, jovens e adultos, negros e brancos, formando as chamadas maltas. As maltas / bandos, que muitas vezes se associavam aos interesses políticos da época, persistiram como os grandes promotores da desordem e dos “acertos de contas”. Os meninos pobres ansiavam por pertencer às maltas de suas ruas. Ingressavam com cerca de dez anos, e inicialmente carregavam armas – facas, canivetes, navalhas – para as refregas previamente anunciadas. Depois treinavam em locais determinados. Com 14 anos já estavam formados. A expectativa de vida destes jovens era pequena, já que a média de idade que emana dos registros da polícia era de 22 anos.
Mas alguns faziam carreira; como Manduca da Praia. Ele era capoeira afamado e chefe político das urnas da freguesia de São José. Mas fora das rinhas eleitorais, vivia de pequenos golpes, venda de proteção, contrabando, atentados arranjados, tira-teimas com dom-juans emperdenidos, além de trafico de influências e outros crimes.
  O ano chave para a capoeiragem carioca é 1870. Por muitos motivos a Guerra do Paraguai (1865/1870) foi um divisor de águas na sua história. Arrastados às centenas para o campo de batalha, eles arrancaram pendores de bravura nos combates corpo a corpo e conquistaram o respeito da oficialidade. Voltaram como heróis e retomaram o controle dos pontos da malha urbana que haviam abandonado como “voluntários” para lutar no sul.br> Na Bahia o fenômeno das maltas não aconteceu, mas a figura do capoeirista também era associada à imagem do desordeiro e criminoso, mas neste caso atuando individualmente. Surgiram neste período na Bahia, grandes mitos da capoeiragem dentre eles o lendário Besouro Mangangá. Capoeirista e faquista perigoso acabou assassinado aos 27 anos em Maracangalha.
Na Bahia o fenômeno das maltas não aconteceu, mas a figura do capoeirista também era associada à imagem do desordeiro e criminoso, mas neste caso atuando individualmente. Surgiram neste período na Bahia, grandes mitos da capoeiragem dentre eles o lendário Besouro Mangangá. Capoeirista e faquista perigoso acabou assassinado aos 27 anos em Maracangalha.

  Em relação ao final do período da marginalidade Waldeloir Rego nos coloca que “a capoeira, um folguedo por propósito, começa a sofrer mudanças de caráter etnográfico, em sua estrutura – a luta que era um acontecimento passou a ser um propósito. Por outro lado, isso acontecia justamente num período em que a sociedade brasileira chegava ao auge nas suas transformações de base por que vinha passando... e a capoeira, por uma determinação sociológica, não poderia estar imune a estas transformações.